Copyright © 1995 Depósito legal pp.76-0010 ISSN 0378-1844. INTERCIENCIA 20(2): 93-100

COMUNICACIONES
REPORTS
COMUNICAÇÕES


SAÚDE COLETIVA / ATIVIDADE FÍSICA E O PADRÃO EPIDEMIOLÓGICO DE TRANSIÇÃO: A HANSENÍASE COMO MODELO (*)

HENRIQUE LUIZ MONTEIRO(1),AGUINALDO GONÇALVES(2), DILTOR VLADIMIR DE ARAUJO OPROMOLLA(3), CARLOS ROBERTO PADOVANI(4) NEUSA NUNES DA SILVA E GONÇALVES(5) e MARIA LUIZA TOLEDO MARTINS MONTEIRO(6)

(1) Professor Assistente e Coordenador do Curso de Licenciatura em Educação Física, Departamento de Educação Física, Faculdade de Ciências, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Campus de Bauru; Mestre e Doutorando pela Faculdade de Educação Física (FEF), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP); Membro do Grupo de Saúde Coletiva/ Epidemiologia e Atividade Física.
(2) Médico especialista em Saúde Pública, Hansenologia e Medicina do Trabalho. Mestre, doutor e pós-doutor pela Universidade de São Paulo (USP). Professor Titular Habilitado, Escola Nacional de Saúde Pública. Professor Visitante, Departamento de Ciências do Esporte, FEF, UNICAMP. Coordenador do Grupo de Saúde Coletiva/ Epidemiologia e Atividade Física.
(3)Médico dermatologista e hansenólogo, Diretor da Divisão de Ensino e Pesquisa do Instituto Lauro de Souza Lima (ILSL), da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo (SS-ESP). Doutor em Medicina, Faculdade de Medicina da (UNESP), Campus de Botucatu. Consultor, por repetidas vezes, da Organização Mundial de Saúde. Ex-pesquisador 1 C do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
(4) Livre-docente, Professor Adjunto e Chefe do Departamento de Bioestatística, Instituto de Biociências, UNESP, Campus de Botucatu; Mestre e doutor, USP; Dirigente da Sociedade Brasileira de Biometria. Autor principal e colaborador de dezenas de trabalhos científicos publicados em periódicos correntes no país e no exterior e apresentados em eventos técnicos-científicos.
(5) Especialista em Educação em Saúde e em Saúde Maternoinfantil, USP. Anteriormente estagiária do Departamento de Bioestatística, Instituto de Biociências, UNESP; bolsista do Laboratório de Mutagênese Humana do Instituto de Biociências, Universidade de Brasília, bolsista do CNPq junto ao ILSL e Diretora da Divisão Nacional de Dermatologia Sanitária do Ministério da Saúde. Educadora em Saúde do Instituto de Saúde da SS-ESP,
(6) Assistente Social, Centro de Planejamento Natural da Família (CENPLAFAM), Núcleo Bauru. Anteriormente, bolsista de aprimoramento pela Fundação de Desenvolvimento e Amparo à Pesquisa, na área de Serviço Social (SS), junto ao ILSL; bolsista de aperfeiçoamento B do CNPq, junto ao Centro de Diagnóstico Auditivo, da Linguagem e Visual, da USP.
(*) Projeto financiado pelo Fundo de Apoio ao Ensino e Pesquisa, Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, Brasil (Proc. no. 0703/93).

 


RESUMO

Empreendem-se esforços, preliminarmente, no sentido de caracterizar a relação Saúde Coletiva/Atividade Física a partir de realidades sócio-económicas diferentes. A este respeito, ressalta-se a necessidade de investigações sobre o assunto visando a construção de referencial teórico-metodológico pertinente à situação defrontada em nosso meio. Para tanto, toma-se como modelo de estudo doença infecto-contagiosa de evolução crônica que cursa com lesões sensitivo-motoras periféricas, incapacitantes, portanto, ao portador da moléstia: a hanseníase. Atuando sobre informações articuladas em torno do Serviço de Arquivo Médico e Estatístico (SAME) do Instituto "Lauro de Souza Lima", Bauru, SP, propõe-se respectivo estudo exploratório, de série histórica. Para tanto, procedeu-se a sistematização das informações contidas em relatório etiológico anual das internações referentes ao período de 1987 a 1992, onde se encontram os registros de todos os diagnósticos formulados no hospital, durante o ano. A ordenação de tais dados pela Classificação Internacional de Doenças (CID) permitiu a construção subseqüente de distribuições: i) descritivas, que expressam estratificações intra e inter grupos da casuística em questão, a partir das variáveis adotadas; ii) analíticas, que buscam caracterizar influências recíprocas entre elas. Para análise comparativa dos dados obtidos utilizou-se o teste de Goodman para populações binomiais. O número de internações, para tratamento de lesões sensitivo-motoras periféricas, apresenta frequência superior no triénio de 1987-89, quando comparado ao de 1990-92, determinando significância estatística a nível de 5%. Ainda que aparentemente tais resultados apontem para possível diminuição destes agravos, a casuística geral por outras doenças também expressa esta tendência. No entanto, isto não permite concluir por melhora das condições de saúde da população, refletindo possivelmente mudança das políticas para a área, ocorridas no período sob estudo. Palavras chaves / Hanseníase / Saúde Coletiva / Atividade Física


SUMMARY

The relationship between Public Health and Physical Activity has been studied in developed Countries and some sound criticism has already begun to be listened, mainly from underdeveloped areas, claiming for more realistic approaches based on local realities: a most frequent mention is about our peculiar epidemiological transition pattern, i.e., disease and death in our regions are both from chronic degenerative and infectious origin, simultaneously due to modernity and poverty. This project was conducted ftom such an approach. It focused on Hanseniasis Peripheral Sensitive Motor Injuries, treated during six years at the Institute "Lauro de Souza Lima", Bauru, SP, a World Health Organization Reference Center for Protuguese Speaking Countries.


A ação exercida pela Atividade Física sobre a Saúde das pessoas e das populações está sendo estudada nos últimos tempos, sobretudo a partir de dois objetivos básicos: por um lado, trata-se de expressar sua influência sobre os padrões de morbimortalidade, para a seguir, formularem-se programas, que, recomendando sua adoção sistemática, visam a melhorar o bem estar e a qualidade de vida. Tais iniciativas têm vicejado em países desenvolvidos, onde resultados interessantes vêm sendo obtidos com os agravos aí mais prevalentes, os de natureza crônico-degenerativa, particularmente cárdiovasculares (v.g. Paffenbarger, 1986; Paffenbarger, 1988; Menotti, 1992).

Algumas questões, no entanto, ainda permanecem controversas no interior da área, podendo-se destacar as mais relevantes: Solomon, 1991, por exemplo, afirma que "os exercícios podem ser agradáveís, podem melhorar sua aparência e fazer você sentir-se melhor: tudo o mais, no entanto, não passa de um mito. Eles não tornam as pessoas mais saudáveis e não aumentam a sua longevídade Na realidade, se ficarmos atentos podem até nos matar ( ... ) porque boa Arma e saúde não são necessariamente a mesma coisa". De fato, parece haver a ação maciça de grande interesse do sistema capitalista em sustentar e, inclusive alimentar, a possível relação entre atividade física e saúde. O mercado de materiais esportivos, especificamente em relação aos itens calções de ginástica, agasalhos de malha e equipamentos atléticos regístrou em 1982, consumo aproximado de 1,4 bilhões de dólares, somente nos Estados Unidos. Não obstante, a "National Sporting Goods Association" nesse ano, estimou que estas cifras não eram absolutamente verdadeiras, ficando 25% abaixo das vendas reais (mg. Solomon, 1991).

Associadamente a este aspecto expassa-se outra lacuna: se o que importa é consumir atividade física, quanto más pessoas a iniciarem, abandonarem-na e depois retomarem-na, melhor! Tudo no costumeiro estilo saxônico, como diria Breilh, 1990! Com efeito, no dizer de Noland, 1989: "Embora as indústrias tenham grandes estratégias para os programas de Promoção da Saúde, poucos pesquisadores têm estudado o uso de reforços na divulgação da aderência ao exercício". Efetivamente, dados sobre a população americana apontam que somente 20% das pessoas se exercitam com intensidade e freqüência que poderiam trazer benefícios a saúde; 40% podem ser considerados completamente sedentários; e aproximadamente 50% dos que se envolvem em programas de exercícios devidamente estuturados, desistem entre o terceiro e o sexto mês de prática (v.g. Noland, 1989). Tais informações, na realidade, só refletem a rede de interesses consumistas que permeiam e tornam pouco esclarecedora a possível relação entre prevenção de doenças hipocinéticas e atividade física. A este respeito, mostra-se bastante pertinente a assertiva de Medina, 1987, ao afirmar: "por trás de um corpo bonito e saúdavel estão presentes os interesses de um sistema econômico que visa o lucro de alguns ao preço da alienação de todos".

A vulnerabilidade maior, no entanto, que já vem sendo detectada a respeito (v.g. Gonçalves et al, 1993; e Monteiro, 1993) refere-se ao realismo e abrangência de tais "avanços". Trata-se, com muita clareza, da necessidade de consideração das especifícidades das sociedades onde são geradas e a que são destinadas informações e conceitos resultantes. De fato, há marcantes diferenças nas condições de saúde das nações norte-americanas e as da América Latina e Caribe, notadamente no que se refere à sua relação com atividade física (v.g. Gonçalves, 1989). Deste modo, três questões importantes devem ser aqui destacadas:

i) É nestes territórios que prevalecem as princípais doenças que acometem o planeta, entre as quais aquelas já controladas pelas nações de economia central tais como, a tuberculose, malária, poliomielite, entre outras (v.g. McBeath, 1991). Em decorrência, devem ser nossos os esforços necessários para se superarem as doenças crônico-degenerativas, concomitantemente às infecto-contagiosas, o que no dizer de Silva, 1990, constitui-se no chamado "padrão epidemiológico de trasição";

ii) Este indica para a necessidade de se repensarem os procedimentos metodológicos empregados para o entendimento do processo saúde-doença face à nossa realidade, os quais, com efeito, não podem se constituir dos mesmos utilizados nos paises ricos (v.g. Breilh, 1990);

iii) E, se, por este motivo, os problemas de saúde são mais complexos, sua resolução se torna ainda mais dificil dadas às péssimas condições dos serviços de atenção médica, particularmente no continente latino-americano (v.g. Gonçalves e Gonçalves, 1978).

TABELA I DIFERENTES ENFOQUES DA RELAÇÃO SAÚDE/ ATIVIDADE FÍSICA SEGUNDO PAÍSES DE ORIGEM E TIPOS POSSÍVEIS DE ESTUDOS

Enfoques

Países

 

Desenvolvidos

Subdesenvolvidos

1. Padrão Epidemiológico

Doenças hipocinéticas

Doenças hipocinéticas e as infecto-contagiosas

2. Modelos de Estudo

Osteoporose, obesidade, hipertensão, neoplasias, outras.

A especificidade das incapacidades físicas em hanseníase.

3. Núcleos da relação

Sedentarismo enquanto aspecto relacionado ao comportamento e hábitos individuais.

Sedentarismo enquanto resultado de determinantes sociais, económicos e culturais.

 

TABELA II Distribuição das internações no Instituto Lauro de Souza Lima, segundo categorias da CID (revisão 1975), no triênio de 1987 a 1989.

Categorias

 

1987

1988

1989

   

N

%

N

%

N

%

001-139

Doenças Infecciosas e Parasitárias

302

39,58

296

34,33

395

36,95

140-239

Neciplasmas

25

3,27

55

6,38

51

4,77

240-279

Glandulas Endócrinas, Metabolismo e Transtornos Imunitários

22

2,88

33

3,82

44

4,11

280-289

Sangue e órgãos hematopoéticos

01

0,13

09

1,04

04

0,37

290-319

Transtornos mentais

10

1,31

11

1,27

19

1,77

320389

Sistema nervoso e órgãos dos sentidos

15

1,96

36

4,17

26

2,43

390-459

Aparelho circulatório

39

5,11

29

3,36

36

3,36

460-519

Aparelho respiratório

13

1,70

09

1,04

08

0,74

520-579

Aparelho digestivo

07

0,91

10

1,16

07

0,65

580-629

Aparelho gênito-urinario

20

2,62

20

2,32

30

2,80

630-676

Gravidez Parto e Puerpério

           

680-709

Pele e subcutâneo

193

25,29

168

16,48

281

26,28

710-739

Osteomuscular e conjuntivo

25

3,27

56

6,49

82

7,67

740-759

Congênitas

10

1,31

16

1,85

17

1,59

760-779

Perinatal

-

-

-

-

-

-

780-799

Ma) definidos

09

1,17

03

0,34

03

0,28

800-999

Lesões, envenenamentos

51

6,68

96

11,13

31

2,89

 

Neurites (exclui sensorial)

21

2,75

15

1,74

35

3,27

TOTAL

 

763

100,0

862

100,0

1069

100,0

Tais problemas têm resultado em inúmeros trabalhos, sobretudo de pesquisadores de origem latina, com vistas à formulação de novas propostas para nortear a melhor compreensão do problema a nível do coletivo entre nós. A este propósito, ainda que não diretamente relacionados a relação Saúde/Atividade Física, podem-se ressaltar algumas iniciativas pioneiras como as de Laurel e Noriega, 1989, da Universidade Autônoma do México; Granda e Breilh, 1989, do Centro de Estudos e Assessoria em Saúde - CEAS, Equador; e algumas brasileiras, tais como as de Gonçalves, 1980 em São Paulo; Victora et al, 1989, em Pelotas, RS; e Possas, 1989, ao investigar padrões de morbi-mortalidade da população brasileira.

Dado este contexto, notase, de pronto, que o entendimento da relação Saúde-Atividade Física, em nosso meio, merece ser também tratado a partir de novas perspectivas, ou seja, da construção de referenciais teórico-metodológicos baseados na realidade a qual defrontamos. Assim, campo potencialmente fecundo de investigação a ser defrontado entre nós, vem se delimitando, no sentido de:

i) Tomar como objeto de estudo da relação Saúde Coletiva/ Atividade Física em nosso meio, doença infecto-contagiosa que resulta em incapacidades sensitivo-motoras periféricas, lesivas, portanto, ao desenvolvimento de movimentos corporais básicos para a vida diária. Nesse sentido, dada a sua magnitude, mostra-se bastante realista o estudo da hanseníase, a qual atingia, estimadamente, em 1987 mais de meio milhão de brasileiros (Gonçalves, 1987), fato que coloca o nosso país, em relação ao continente, como o responsável por aproximadamente 85% dos casos (Carvalho e Muniz, 1989Y e, ainda, juntamente com a Colômbia e a República Dominicana, na categoria das nações latinoamericanas onde a endemia é progressiva (Lombardi, 1988);

ii) Explorar, a partir da nosologia de hospital especializado no tratamento da moléstia, componentes relevantes no processo de conhecimento de sua realidade, desde o diagnóstico epidemiológico, a definição de políticas e prioridades públicas, a formulação de planos de ação e a implementação das gestões administrativas. Cabe ressaltar que iniciativas nesse sentido, em relação a casuísticas hospitalares de outra especialidade, já puderam ser empreendidas adequadamente entre nós em distintas universidades (v.g. Gonçalves, 1981; Ferrari et al, 1991).

Desta forma, como primeira comunicação situada no interior de linha de pesquisa aderente a estes objetivos, a presente investigação se propôs a identificar, sistematizar, expressar e problematizar a relação Saúde Coletiva/Atividade Física, tomando como ponto de partida o conhecimento da nosografia de hospital especializado em Hanseníase e Dermatologia Sanitária do país, obtida em série histórica de seis anos consecutivos, até o presente, a partir de satisfação de respectiva demanda passiva.

Material e Métodos

Dos diversos instrumentos secundários, gerados a partir do prontuário clínico, o presente projeto apropriou-se como fonte única de observações, do chamado relatório etiológico anual, implantado em 1987 e mantido corrente para uso nas enfermarias até o momento.

Trata-se de registro de dados transferido para listagem datilográfica constituído por: i) todos os diagnósticos formulados no Instituto durante o ano; ii) sua expressão segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID), Revisão 1975 (OMS, 1978); iii) a freqüência de sua ocorrência; iv) sua estratificação segundo o regime dos atendimentos prestados, se de enfermaria ou ambulatorial.

A ordenação manual de tais informações enumerativas segundo as categorias de três algarismos da CID, 1977, permitiu a construção subseqüente de distribuições: i) descritivas (Padovani, 1991), que expressam estratificações intra e inter grupos da casuística em questão, a partir dos triênios de 1987-89 e 1990-92; e ii) analíticas, que buscam caracterizar influências recíprocas entre elas. Estas foram procedidas pela comparação das taxas do teste de Goodman para contrastes entre e dentro de populações binomiais (Goodman, 1964; Goodman, 1965). Neste, a análise dos resultados recorreu ao emprego de dois tipos de letras: i) minúsculas, colocadas ao lado dos valores numéricos para observação entre linhas, fixada a coluna; ii) maiúsculas para comparação de colunas numa dada linha. A seguir, expressam-se as diferenças em qualquer um dos dois casos, por taxas que não tenham letra de mesmo tipo (maiúscula ou minúscula) em comum. Efetivaramse as inferências ao nível de significância de 5% de probabilidade (Gonçalves, 1982)

TABELA III Distribuição das internações no Instituto Lauro de Souza Lima, segundo categorias do CID (revisão 1975), no triênio de 1990 a 1992.

Categorias

 

1990

1991

1992

   

N

%

N

%

N

%

001-139

Doenças Infecciosas e Parasitárias

264

45,43

243

40,03

192

33,98

140-239

Neciplasmas

21

3,61

14

2,30

07

1,23

240-279

Glandulas Endócrinas, Metabolismo e Transtornos Imunitários

14

2,40

14

2,30

28

4,95

280-289

Sangue e órgãos hematopoéticos

04

0,68

-

-

03

0,53

290-319

Transtornos mentais

05

0,86

05

0,82

-

-

320-389

Sistema nervoso e órgãos dos sentidos

12

2,06

25

4,11

23

4,07

390-459

Aparelho circulatório

13

2,23

24

3,95

18

3,18

460-519

Aparelho respiratório

04

0,68

02

0,32

09

1,59

520-579

Aparelho digestivo

05

0,86

03

0,49

02

0,35

580-629

Aparelho gênito-urinario

09

1,54

11

1,81

08

1,41

630-676

Gravidez Parto e Puerpério

-

-

-

-

-

-

680-709

Pele e subcutâneo

163

28,05

173

28,50

166

29,38

710-739

Osteomuscular e conjuntivo

26

4,47

30

4,94

49

8,67

740-759

Congênitas

06

1,03

07

1,15

02

0,35

780-799

Ma) definidos

02

0,34

04

0,65

05

0,88

800-999

Lesões, envenenamentos

23

3,95

13

2,14

16

2,83

 

Neurites (exclui sensorial)

10

1,72

39

6,42

37

6,54

TOTAL

 

581

100,00

607

100,00

565

100,00

 

TABELA IV Distribuição de freqüências relativas das internações do Instituto Lauro de Souza Lima, nos triênios de l 987-89 e l 990-92, segundo categorias de maior pertinencia à hanseníase.

Categorias

Triênio

 

1987-89

1990-92

1. Doenças Infecciosas e Parasitárias

0,587b

0,413b

 

B

A

2. Pele e Subcutâneo

0,561ab

0,439bc

 

13

A

3. Osteo -muscular e conjuntivo

0,608bc

0,392ab

 

B

A

4. Neurites (exclui sensorial)

0,452a

0,548c

 

A

A

5. Outros

0,696e

0,304a

 

B

A

 

TABELA V Distribuição de freqüências relativas da casuística do instituto, internações, triênio 1987-89 e 1990-92, segundo Doenças Infecciosas e Parasitárias.

Doença

Triênio

 

1987-89

1990-92

Hanseníase

0,574a

0,426b

 

B

A

Outras

0,640b

0,360a

 

B

A

 

Resultados

As distribuições de freqüência da casuística de internações do Instituto Lauro de Souza Lima, pua os triênios de 1987-89 e 1990-92, segundo categorias da CID, estão descritas nas Tabelas II e III respectivamente. A este respeito, cabe ressaltar o predominio das doenças infecciosas e parasitárias (001-139) e dos agravos relativos à pele e subcutâneo (680-709) em ambos os períodos considerados. Notou-se, ainda, diminuição do número de internações no segundo triênio.

As categorias de maior pertinência, as quais correspondem a freqüências que giram em torno de 75 a 90% do total de internações nos dois triênios sob investigação, quando analisadas sob forma de proporções (Tabela IV), revelam: i) diminuição significativa da freqüência de internações em todos os grupos, exceto no relativo a neurites; ii) o item outros, que predominava no primeiro triênio, passa a ser menos freqüente no subseqüente - tratar-se-ia de modificação da política de internação, priorizando a hanseníase, ou seria apenas um aumento da demanda por hanseníase?; iii) tal alteração do quadro de freqüências se acompanha da elevação das categorias pele e subcutâneo e neurites.

A Tabela V canaliza a análise no sentido de comparar as internações por hanseníase com as demás. Constatam-se, neste caso, diferenças estatisticamente significantes de um triênio para outro, na proporção dos dois grupos estudados; corroboraivamente, no segundo, a freqüência relativa apontou para o aumento do número de internações pela moléstia específica.

Particularizando-se para as lesões sensitivo-motoras periféricas que afetam o tecido ósteo-muscular e conjuntivo, nota-se, na Tabela VI única significância estatística na diminuição, de um período para o outro, da ocorrência de garra de membros superiores e inferiores. Constituirse-ia este achado em evidência favorável a melhor controle da endemia entre nós, no sentido de que acompanhamento adequado estaria abortando o quadro evolutivo da moléstia e impedindo assim a instalação de tais componentes sequelares? Ou, contrariamente, a questão se restringiria ao âmbito de serviços, no sentido de manifestar restrições ou frutuações à demanda passiva?

As Tabelas VII e VIII apresentam distribuição de freqüência absoluta e relativa da hanseníase e dos principais agravos causados por esta doença, principalmente os que afetam o sistema locomotor: destaca-se o número de mal perfurante plantar (MPP), uma das principais conseqüências para a prática de atividade física do portador do agravo. Ainda, conforme indicado na Tabela IX, osteomielite e neurites não apresentaram, entre os triênios, diferenças estatisticamente significativas, dada a manutenção das respectivas taxas, enquanto todas as demais declinavam. As referentes a garra e amputação se sobrepõem a de neurite no primeiro triênio, o contrário ocorrendo no período subseqüente.

Discussão

Questão fulcral a ser abordada, face ao que se encontrou, diz respeito às flutuações das freqüências de internações nos triênios estudados. Nesse sentido, tanto a diminuição do volume de casos, num âmbito mais geral, quanto a redução de garras de membros superiores e inferiores, tomadas como agravo mais específico que decora da doença, merecem ser aqui comentados.

A este propósito, cabe registrar, por exemplo, o reconhecimento internacional do hospital como Centro de Referência da Organização Mundial de Saúde para os países de língua portuguesa, e a nível estadual, a sua modificação, para a condição de instituto, fato este que também pode ser considerado determinante para a redução de casuística observada no segundo triênio.

Tais mudanças apontam no sentido de direcionar as atividades da instituição para a sua especificidade hansenológica, concentrando, inclusive, grande ênfase na formação e capacitação de pessoal qualificado para atuação em seus locais de origem. Isto se reflete, mais diretivamente, nos doze cursos anuais com duração de seis a quinze dias, com destaque para aqueles voltados à Prevenção de Incapacidades e Reabilitação Física em Hanseníase; no oferecimento de vagas para residência médica na área de dermatologia sanitária, e de estagiários e aprimorandos para as áreas de Nutrição, Serviço Social, Psicologia, Enfermagem, Fármacia e Bioquímica, e até mesmo a profissionais para atuação em oficina ortopédica (v.g. Fenix, 1989).

Outra ressalva a se fazer no tocante aos dados estudados é o fato de estes se referirem à realidade desvelada por internações. A natureza destas informações, embora apontem, exploratoriamente, para tendêncós da casuística hospitalar, implica, por outro lado, em limitação do estudo uma vez que não se consideraram as doenças tratadas a nível ambulatorial.

Restrição a respeito foi observada por não terem sido registrados aspectos do movimento na fisiopatologia da moléstia, como, por exemplo, a questão da insensibilidade. Especificamente, sobre este agravo, Pedroso et al, 1989, ao procederem a estudo multicêntrico da realidade das lesões sensitivo-motoras em hanseníase no Brasil, encontraram em 181 doentes, cerca de 950 incapacidades físicas, das quais 47,24% se referiam somente à insensibilidade nas mãos e pés. Tal constatação decorre do fato de a casuística de internações refletir apenas a ponta de imenso "iceberg", retratado, neste caso, pelas lesões mais graves, porém não as mais freqüentes.

Insistindo no enfoque que aqui está se recuperando de Opromolla, 1977, trabalhado por Gonçalves e Gonçalves, 1980, destaca-se, na consideração da hanseníase, não só seu carater endêmico mas seu componente de estigma e ostracismo, de maneira a importar nem tanto os determinantes microbiológicos, mas as conseqüências sociais, nesta gênese sobressaindo-se os aspectos ligados ao corpo e ao movimento.

E exatamente nesse sentido que apontam alguns dados aqui coligidos. De fato, observou-se que, apesar das variações de freqüências observadas e das mudanças havidas no controle da endemia, continua-se ainda, lidando, com situações tais como a osteomielite, neurites, mal perfurante plantar, amputações e garras, as quais, particularmente estas duas últimas, expressam a especificidade do movimento na fisiopatologia da resposta do hospedeiro à interação da triáde nosográfica. Vale dizer, mesmo a doença decorrendo de desequilíbrio entre suscetível, agente e meio, é na atividade física do primeiro que repousa a instalação da face más perversa do agravo.

TABELA VI Distribuição de taxas da casuística de doenças do sistema osteo-muscular e do tecido conjuntivo, do Instituto Lauro de Souza Lima, triênio 1987-89 e 1990 92, segundo categorias de maior pertinencia à hanseníase.

Agravo

Triênio

 

1987-89

1990-92

Garra de MMII e MMSS

0,720a

0,280a

 

B

A

Osteomielite

0,571a

0,429a

 

A

A

Outras

0398a

0,402a

 

A

A

 

TABELA VII Distribuição de freqüência das prováveis lesões motoras periféricas da casuística do Instituto Lauro de Souza Lima, internações, triênio 1987-89, segundo categorias do CID (Revisão 1975), mais frequentes.

Hanseníase

1987

1988

1989

 

N

%

N

%

N

%

Mal perfurante plantar

121

28,80

92

22,66

149

27,09

Garra de MMSS e MMII

06

1,42

15

3,69

15

2,72

Osteomielite

10

2,38

30

7,38

32

5,81

Amputação de MMSS e MMSS

16

3,80

26

6,40

17

3,09

Neurites (exclui sensorial)

21

5,00

15

3,69

35

6,36

Não especificada

246

58,57

228

56,15

302

54,90

Total

420

100,00

406

100,00

550

100,00

 

TABELA VIII Distribuição de freqüência das prováveis lesões motoras periféricas da casuística do Instituto Lauro de Souza Lima, internações, triênio 1990-92, segundo categorias do CID (Revisão 1975), mais frequentes.

Hanseníase

1990

1991

1992

 

N

%

N

%

N

%

Mal perfurante plantar

84

23,52

92

26,43

95

28,96

Garra de MMSS e MMII

07

1,96

03

0,86

04

1,21

Osteomielite

15

4,20

19

5,45

20

6,09

Amputação de MMSS e MMSS

16

4,48

05

1,43

10

3,04

Neurites (exclui sensorial)

10

2,80

39

11,20

37

11,28

Não especificada

225

63,02

190

54,59

162

49,39

Total

357

100,00

348

100,00

328

100,00

 

Tabela IX Distribuição das freqüências relativas das prováveis lesões motoras periféricas da casuística do Instituto Lauro de Souza Lima, internações, triênio 1987-89 e 1990-92, segundo catego rias do CID (Revisão 1975), de maior pertinência à hanseníase.

Hanseníase

Triênio

 
 

1987-89

1990-92

Mal perfurante plantar

0,572ab

0,428ab

 

B

A

Garra de MMSS e MMII

0,720b

0280a

 

B

A

Osteomielite

0,171ab

0,429ab

 

A

A

Amputação de MMSS e MMII

0650

0j4a

 

13

A

Neurites (exclui sensorial)

0,652a

0,548b

 

A

A

Não especificada

0,574ab

0,426ab

 

B

A

Segundo aspecto da relação entre a referida concepção de tríade ecológica com as incapacidades sensitivo-motoras periféricas da hanseníase, pode ser encontrada a partir de adaptação de modelo proposto por Caspersen, 1989, para o entendimento de lesões desportivas. Poder-se-ia descrever assim, o agente como relacionado à duração, freqüência e tipo de movimento corporal; o hospedeiro como caracterizado por idade, sexo, grau de comprometimento neuronal e nível de insensibilidade; e finalmente o ambiente, no que diz respeito às condições climáticas, natureza dos locais onde as atividades cotidiarias são desenvolvidas, tipo de trabalho normalmente utilizado, entre outros.

A propósito, modelo bastante pertinente para o estudo desta relação parece ser o atinente à atividade ocupacional, dado que é na mesma onde os indivíduos dedicam maior número de horas diárias de suas vidas.

Assim, fiel ao já explícitado anteriormente quanto à necessidade de construção do referêncial teórico-metodológico da relação Saúde Coletiva/ Atividade Física em nosso meio diferencialmente daquelas das nações desenvolvidas trata-se de não mais enfatizar apenas as doenças hipocinéticas, mas, sobretudo, as infecto-contagions e parasitárias.

Postos os fatos assim considerados, entende-se que a Tabela I possa ser aceita como síntese das tendências aqui tratadas.

REFERÊNCIAS

Breilj ,J. ;Granda, E.; Campana, A.; Yépez, J.; Paez, R. e Costales, P. (1990): Deterioro De La Vida. Quito, Corporacion.

Carvalho,R. B. e Muniz, M.(1989): Nem Castigo Divino, Nem Mal Hereditário. Ciência Hoje, 10(60):54-58.

Caspersen, C.J. (1989): Physical Activity Epidemiology: Concepts, Mehods And Application To Exercise Science. In: Pandolf, K.B. Exercise And Sports Science Reviews. Baltimore, Willians & Wilkins.

Fenix (1989): Reabilitação do hanseniano evolui com a capacitação profissional. Informativo do Centro de Estudos "Dr. Reynaldo Quagliato", do Instituto Lauro de Souza Lima de Bauru. V(5): 5.

Ferrari, I.; Gonçalves, N.N.S.; Gonçalves, A.; Santos, M.; Amorelli, S.; Cardoso, M.T.; Brun, J. Pratesi, R. e Padovani, C.R. (1991): Caracterização De Perfil E De Operacionalização De Ambulatório De Genética Em Nosso Meio. Rev. Bras. Med. 48(9): 575-583.

Gonçalves, A.(1980): Variabilidade Dos Agravos Constitucionais Em Pré- Escolares Da Cidade De São Paulo. São Paulo, Universidade De São Paulo, 1980. Tese /Doutorado/.

Gonçalves, A. (1981): Avaliação Do Desempenho De Um Ambulatório De Genética Em Nosso Meio. Rev. Bras. Clin. Terap., 70: 593-596.

Gonçalves, A. (1982):Os testes de hipóteses como instrumental de validaçào da interpretação (Estatística Inferencial). In: Marcondes, M.A. & Lakatos, E.M. - Técnicas De Pesquisas. São Paulo, Atlas.

Gonçalves, A. (1987): Epidemiologia E Controle Da Hanseníase No Brasil. Bol. Of. Sanil. Panam. 102 (3): 246-256.

Gonçalves, A.(1989): Saúde E America Latina-Contribuições Conceituais E Metodológicas. Rev. Bras. Ciênc. Esp., 1(1): 14-18.

Gonçalves, A. e Gonçalves, N.N.S. (1978):. Inquérito Sobre Prática Médica. Educ. Med. Salud 12 (1): 59-72.

Gonçalves, A. e Gonçalves, N.N.S.(1980): Epidemiologia E Controle Da Hanseníase: Atualização Conceitual. Rev. bras. Med. 37 (8): 414-417.

Gonçalves, A Monteiro. H.L. Ghirotto, F.M.S. e Matiello Jr, E. (1994): Saúde e Atividade Física: conceitos básicos. Portugal, Horizonte, (59): 185-188.

Goodman, L.A. (1964): Simultaneous confidence intervals for contrasts among multinomial populations. Ann. Math. Swat 35: 716-725.

Goodman, L.A. (1965): On simultaneous confidence intervals for contrasts among multinomial proportions. Technometrics 7(2): 247-254.

Granda, E. & Breilh, J. (1989). Saúde na Socidade: guia pedagógico sobre um novo enfoque do mésdo epidemiológico. São Paulo, Cortez.

Laurell A.C. e Noriega, M. (1989) Processo de produção e saúde: trabalho e desgaste operário. São Paulo, HUCITEC.

Lombardi, C. (1988): Situacion epidemiológica de la lepra en 12 países de América Latina y el Caribe, 1980 - 1983. Bol. Of. Sanit. Panam. 105 (1):20-32..

McBeath, W.H. (1991): Health for all: a public health vision. Am. J. Publ. Hlth. 81 (2): 1560-1565.

Medina, J.P.S. (1987): O brasileiro e seu corpo: educação e política do corpo. Campinas, Papirus.

Menotti, F.S.A. (1992): Physical activity, physical fitness and mortality in sample of middle aged men followed-up 25 years. J. Sports Med. Phys. Fit., 32 (2): 206-214..

Monteiro, H.L. (1993): Saúde Coletiva e Aptiddo Fisica de escolares de segundo grau. estudo a partir do Colégio Técnico Industrial - UNESP, Bauru. Campinas, UNICAMP, Dissertaqfto /mestrado/.

Noland, M.P. (1989): The effects of self-monitoring and reinforcement on exercise adherence. RQES, 60(3): 216-224.

O.M.S. (1978): Manual da classificaçâo estatística internacional de doenças, lesões e causas de óbito. São Paulo, Centro da OMS para classificação de Doenças em Português, 1978.

Padovani, C.R. (1991) Estatística na metodologia da investigação científica. Bauru, Universidade do Sagrado Coração, 1991.

Paffenbarger, R.S.; Hyde, R.T.; Wing, A.L. e Hsieh, C.C. (1986): Physical Activity, All Causes mortality, and longevity of College Alumni. New Engl. J Med., 314 (10): 605-613.

Paffenbarger, R. S. (1988): Contributions of epidemiology to exercise science and cardiovascular health. Med. Sc. Sports Exerc., 20 (5): 426-438.

Pedroso, M.; Gonçalves, A.; Padovani, C.R.; Baccarelli, R.; Oliveira, S.(1989): Prevenção e tratamento das incapacidades físicas em hanseníase no Brasil: estudo de risco profissional específico para a doença. Hansen. Int. 14(2): 112-119,

Possas, C. (1989): Epidemiologia e Sociedade: heterogeneidade estrutural e saúde no Brasil. São Paulo, HUCITEC.

Silva, G.R. (1990): Avaliação e perspectivas da epidemiologia no Brasil. In: I CONGRESSO BRASILEIRO DE EPIDEMIOLOGIA. Anais. Campinas, ABRASCO.

Solomon, H.A. (1991) O mito do exercício. São Paulo, Surrimus.

Victora, C.G.; Barros, F.C.; Vaughan, J.P. (1989): Epidemiologia dá desigualdade. São Paulo, HUCITEC.

Atrás / Back / Voltar